cover
Tocando Agora:

Sem patrocínio, bloco Pagu ameaça não desfilar; organizadores cobram mudanças no modelo do carnaval de rua de SP

Bloco Pagu celebra a força feminina com repertório de ícones como Rita Lee e Gal Costa, desfilando no centro de SP. Divulgação. Sem patrocínio e com dific...

Sem patrocínio, bloco Pagu ameaça não desfilar; organizadores cobram mudanças no modelo do carnaval de rua de SP
Sem patrocínio, bloco Pagu ameaça não desfilar; organizadores cobram mudanças no modelo do carnaval de rua de SP (Foto: Reprodução)

Bloco Pagu celebra a força feminina com repertório de ícones como Rita Lee e Gal Costa, desfilando no centro de SP. Divulgação. Sem patrocínio e com dificuldades para fechar as contas, blocos tradicionais do carnaval de rua de São Paulo, como o Pagu, afirmam que o modelo atual de financiamento da festa coloca em risco a realização dos desfiles. Organizadores criticam o valor e o formato do fomento oferecido pela gestão Ricardo Nunes (MDB) e cobram mudanças para garantir a sobrevivência de iniciativas ligadas à cultura local. No ano passado, o carnaval paulistano atraiu 16 milhões de foliões e movimentou R$ 3,4 bilhões na economia da cidade. Apesar disso, neste ano apenas 100 blocos foram selecionados para receber apoio financeiro da prefeitura, com repasses de até R$ 25 mil cada um — R$ 2,5 milhões no total. “O carnaval cresce, mas cresce de forma cara. Os blocos são muito diferentes entre si e os modelos precisam ser repensados para garantir a viabilidade da festa”, afirma Mariana Bastos, fundadora do bloco feminista Pagu. SP terá 630 blocos de rua no Carnaval 2026 Segundo ela, o edital municipal não diferencia blocos pequenos, médios ou grandes, nem prevê fomento proporcional à estrutura necessária para cada desfile. Elas foram contempladas com os R$ 25 mil do apoio financeiro, mas afirmam que os gastos para colocar o bloco na rua é de R$ 250 mil (leia mais abaixo). “A gente ainda tem um problema grande com o crescimento dos megablocos de artistas muito consagrados, o que dificulta a disputa por marcas patrocinadoras, que priorizam essencialmente a visibilidade”, diz. Para enfrentar a dependência de patrocínios privados e reduzir a desigualdade entre blocos de diferentes tamanhos, Mariana defende mudanças no modelo de financiamento do carnaval de rua de São Paulo. Entre as propostas, está a criação de um mecanismo permanente de redistribuição dos recursos gerados pela própria festa. “Existem alternativas, possibilidades de a gente pensar, por exemplo, na criação de um fundo para os blocos que seja abastecido pela comercialização das cotas do carnaval da cidade. Então parte é destinada para os blocos e para as atrações”, afirma. A falta de patrocínio já levou outros blocos a suspender desfiles na capital. O Bloco do Sargento Pimenta anunciou nesta semana que não vai sair às ruas de São Paulo neste ano por não ter conseguido apoio financeiro para viabilizar o cortejo. Em comunicado divulgado nas redes sociais, a organização afirmou que a decisão não foi motivada por falta de interesse em desfilar na cidade, onde mantém tradição desde 2013, mas pela impossibilidade de arcar sozinha com os custos do carnaval. Já o megabloco o Tarado Ni Você, apesar das dificuldades, afirma que mantém o desfile neste ano, mesmo que, na ausência de patrocínio, precise recorrer a recursos próprios e a empréstimos a banco alternativas que os organizadores classificam como extremas e sintomáticas do atual modelo de financiamento do carnaval de rua em São Paulo. Rodrigo Guima, fundador e diretor criativo do bloco, ressaltou que a agremiação, assim como outras, "faz parte de um levante que construiu o carnaval de São Paulo para que ele se tornasse o que é hoje. Os blocos são movimentos artísticos e culturais que entregam criatividade, entretenimento, ocupação de espaços públicos, debates políticos, movimentação da economia e tudo dentro da ótica da cultura - e precisamos de fomento para custear nossa grande entrega". "Nosso desejo é a criação de um novo congresso carnavalesco para discutirmos nossos interesses e reais necessidades, da valorização do 'Circuito Centro Histórico' e que as marcas e os órgãos públicos entendam que o carnaval quem faz são os bloco locais e que esse dinheiro que anualmente é colocado nas mãos de prefeitura, chegue também aos blocos", afirma Rodrigo Guima, fundador e diretor criativo do Bloco Tarado Ni Você. Procurada pelo g1, a Prefeitura de São Paulo afirmou que oferece aos blocos “toda a infraestrutura para a realização do Carnaval de Rua da cidade, além de apoio financeiro”, mas ressaltou que “é de responsabilidade dos organizadores de blocos se viabilizarem economicamente para a festa por meio de patrocínio” (leia mais abaixo). Sobre o Bloco Sargento Pimenta, a Secretaria Municipal de Cultura e Economia Criativa afirmou que “lamenta a decisão”, mas disse que ela “não tem qualquer relação com a política de fomento da Prefeitura”, já que os organizadores “sequer se inscreveram para o recebimento dos recursos”. Custos em alta A organizadora Thais Haliski, do Acadêmicos da Cerca Frango e uma das fundadoras da Comissão Feminina do Carnaval de Rua, relata que os custos para colocar um bloco na rua cresceram de forma exponencial nos últimos anos e que a Cerca Frango só consegue viabilizar o cortejo por contar com uma rede ampla de apoiadores. Em 2019, segundo ela, era possível realizar um desfile com cerca de R$ 8 mil, contando com caminhão próprio, festas pontuais para arrecadação e ensaios feitos na rua. Hoje, apenas para sair com um bloco de cerca de 5 mil pessoas, o custo mínimo varia entre R$ 60 mil e R$ 65 mil, incluindo aluguel de estúdios para ensaios e despesas operacionais. Ensaios, blocos e festas já esquentam pré-carnaval em SP; confira programação Além disso, os organizadores reclamam do formato do repasse do fomento. Como o recurso é pago a pessoas físicas, há descontos e o valor líquido diminui. “Quando o dinheiro chega, os R$ 25 mil viram cerca de R$ 19 mil”, afirma Thais. Fundado em 2016 em São Paulo, Pagu é um coletivo carnavalesco com bateria 100% feminina. Divulgação No caso do Pagu, Mariana diz que a planilha de custos chega a R$ 250 mil. O bloco conta com 130 ritmistas na bateria, cerca de 70 pessoas, entre seguranças, cordeiros, ajudantes e bombeiros, além de 20 integrantes de banda e mestras de percussão, fora equipes de produção, comunicação e apoio. Para viabilizar os desfiles, os blocos recorrem à realização de festas ao longo do ano, apresentações extras e parcerias pontuais. “Existe uma ideia malvista de que o poder público não deveria ajudar mais. Na prática, o bloco paga para sair, e está cada vez mais caro”, diz Thais. Blocos menores também sofrem A dificuldade não atinge apenas os blocos grandes. Blocos médios também relatam que o crescimento do carnaval tornou a festa financeiramente inviável. É o caso do Bloco do Fuá, tradicional do Bixiga, no Centro da capital, que reúne cerca de 15 mil foliões. “[Virar bloco grande] só traz problema: exige mais estrutura, caminhão de som caro, segurança e bombeiros”, afirma Marco Ribeiro, fundador do bloco. Segundo ele, o Fuá vai desfilar neste ano sem apoio público ou privado. “A gente vai sair às próprias custas.” O custo anual do bloco gira em torno de R$ 50 mil, sendo o aluguel do carro de som o principal gasto. Para se manter, o grupo promove festas ao longo do ano. "O bloco faz oficinas o ano todo com a comunidade, para quem não sabe tocar, de canto e tudo mais. E a gente não recebe nada em troca disso, fazendo uma festa gratuita. E ainda a prefeitura ameaça a gente que, se não sair no horário, é punido." Além do valor considerado baixo, Marco também critica a concentração dos recursos. “O patrocinador do carnaval repassa cerca de R$ 30 milhões para a prefeitura. Parte disso deveria ser dividida entre todos que fazem a festa”, diz. A crítica é compartilhada por Lira Alli, da liderança do Arrastão dos Blocos. Segundo ele, vários blocos estão com dificuldades para desfilar neste ano por falta de condições financeiras. “Isso mostra o desinteresse da atual gestão pelos blocos que fazem carnaval o ano inteiro”, afirma. O problema não é novo. Em 2024, mais de 100 blocos suspenderam seus desfiles em São Paulo, citando falta de recursos e falhas no modelo de organização da festa. Na ocasião, o megabloco Domingo Ela Não Vai, que desfila em São Paulo desde 2016 e arrasta multidões, não desfilou por falta de patrocínio. O que diz a prefeitura Leia a nota da prefeitura de São Paulo na íntegra: "A Prefeitura de São Paulo oferece aos blocos carnavalescos toda a infraestrutura para a realização do Carnaval de Rua da cidade, além de apoio financeiro. Mas é de responsabilidade dos organizadores de blocos se viabilizarem economicamente para a festa por meio de patrocínio. A atual gestão criou em 2024 uma política exclusiva de fomento ao carnaval de rua que, de forma bem-sucedida, tem destinado recursos para o carnaval desde então. Neste ano 100 blocos serão contemplados a receber um total de R$ 2,5 milhões. A avaliação para concessão do incentivo não tem qualquer relação com o tamanho do bloco ou a origem dos artistas e segue exclusivamente os critérios previstos em edital. A Secretaria Municipal de Cultura e Economia Criativa (SMC) lamenta a decisão do Bloco Sargento Pimenta, mas ressalta que ela não tem qualquer relação com a política de fomento da Prefeitura uma vez que os organizadores sequer se inscreveram para o recebimento dos recursos. Sobre o Bloco Pagu, a Pasta destaca que as organizadoras foram contempladas e assinaram ontem (27) o contrato para recebimento do apoio financeiro. Entre os pré-requisitos para concessão do incentivo estão a atuação artística e cultural com linguagem e temática carnavalesca e a realização de desfiles por, pelo menos, dois anos, não necessariamente consecutivos."